sábado, 9 de fevereiro de 2008


O ENVANGELHO SEGUNDO JUDAS



"Estava no mundo, e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o conheceu." (João I, 10)



"Beijos a toda a rapaziada!" (Judas I, 1)



II



"Nada é verdadeiro, tudo é possível...isto é uma banalidade"



Jerusalém, ano 0 A.C. Posar como messias era a última tendência. Os profetas apareciam como cogumelos. Uma profusão de lunáticos, néscios, parasitas, charlatães e outros da mesma igualha.

Eu fundei o negócio do momento: uma pop star com quem ninguém podia competir. O público estava predisposto a acreditar em tudo, se bem que tinha predilecção pelos derramamentos de sangue, motins, visões apocalípticas, milagres, aparições e last but not least a libertação do jugo de Roma.

Tinha que criar um género novo, qualquer coisa que confirme a expectativa do público mas que ao mesmo tempo seja a repetição do mesmo com novas roupagens. Andei de um lado para o outro durante algum tempo até que encontrei no deserto um carpinteiro cheio de crostas , um tipo que pregava a paz e o amor aos calhaus e aos gafanhotos: fotogénico, com o cabelo comprido e oleoso. Só que tinha uma merda de nome que não ficava no ouvido: Jesus de Nazaré. "Demasiado reles!" pensei eu. Precisava de qualquer coisa mais pop, mais americana... olhei o seu cabelo e disse-lhe: " A partir de agora, serás Jesus Christ, Jesus o Ungido! " Era o groove que eu procurava. Sugeri-lhe que viesse em tournée comigo e pregasse ao povo, com mesa e cama à minha custa. Expus-lhe a estratégia: "Devemos esmagar a concorrência jogando forte.

Os outros aspirantes de Messias querem salvar o povo de Israel? Tu salvarás a Humanidade. Eles querem expulsar os romanos de Israel? Tu vais abrir as portas do Reino dos Céus. Há um Messias da Sagrada Escritura? Tu serás nada menos que o próprio Deus feito Homem.



Tinha o frontman, agora precisava de encontrar a banda. Durante os três anos em que percorremos em tournée a Palestina recrutei onze gajos boçais e fáceis de enganar. A Jesus Cristo Superstar Tour encerrou-se com uma entrada triunfal em Jerusalém, à qual assistiram milhares de fans. A minha pop star estava no auge da fama. A padralhada e a bófia tinham-lhe um ódio de morte, dizendo que corrompia a juventude, que a amolecia. O seu público venerava-o.

É precisamente quando o vejo entrar na cidade entre duas alas de multidão em extâse, que tenho o grande pensamento.

"Se agora morresse em palco à frente dos fans, agora que ainda é jovem e belo, tornar-se-ia imortal. Um mártir revolucionário imolando-se por amor à Humanidade". Soava bués de fixe, man!

Revelei a Caifás e a Pilatos o local de uma reunião secreta. A Polícia veio e prendeu-o.

Quando o beijei pensava "Agora sim é verdadeiramente um deus, o maior ícone pop da história!"



Depois, as coisas começaram a escapar-me das mãos.

Pedro, o mais crédulo da banda, alardeou que esse Jesus o tinha encarregado de fundar uma igreja. Como sempre, os teóricos da conspiração começaram a afirmar que o ídolo na realidade não estava morto, que um gajo o tinha visto no deserto. As pessoas acabaram por pôr-se de acordo em relação a uma versão da história: que tinha ido para o céu, mas que mais tarde ou mais cedo voltaria e resolveria todos os seus problemas.

Acabaram por vender o ídolo ao poder: os mesmos sacerdotes e polícias que criaram o mártir, reapropiam-no para se legitimarem com roupagens novas: uma estola.

Claro que já me estou a cagar para toda esta estória. Tenho simplesmente que sair de cena e passar a viver dos rendimentos até ao regresso do untado, isto é, para sempre, já que o gajo está tão morto como um prego.







III.





Tinha apenas escrito os próximos dois mil anos de história. tenho o direito de copyright sobre todo o

imaginário ocidental. O Complot Gnóstico queria o controlo da História. Sim : o grande complot da Providência. Sabem, toda a conspiração antes de ter um objectivo tem que ter uma razão de ser interna: uma conspiração tem que ser um jogo auto-suficiente, um quebra-cabeças mutável... nunca nos fartamos de puzzles. Aquela gente divertiu-se com o ícone que eu lhes forneci durante dois milénios, porra! As suas esperanças de redenção tornaram-se um fluxo interminável de lágrimas e gemidos. Os descendentes de Pedro dirigem a mascarada da Fé com os cruzados da Associação Católica dos Trabalhadores Italianos, as irmãzinhas formato-goblin e a escumalha do costume. Não suporto esse tipo de merdas, já não tenho estômago para isso.



De há uns tempos para cá ando a maquinar um plano. Sou um homem de acção, não suporto estar parado, há tanta coisa para fazer, um sem número de riscos a correr. Um profissional como eu sabe que o fim de uma era é como os seus começos... o caos, o Far-West, a polinização cruzada das ideias que geram novos ícones, novas mitologias para entreter, e sobretudo novos complots cósmicos. Um gajo tem que sentir a mudança no ar, as novas tendências; tem que fossar nos locais cheios de fumo, nas vielas, nas cartas ao Editor.

Cum caralho, estamos no fim do milénio; em 1148,o Malaquias, aquele velho monge irlandês, previa o futuro na obscuridade da sua cela, escreveu uma lista com 112 papas até esta altura, e o fim da lista

coincidia com o início do apocalipse. E sabem o melhor, o polaco é o penúltimo. Já não falta muito.

Foi o próprio Malaquias que me deu a ideia, está tudo lá. Ele escreveu que o último papa se atreveria a

chamar-se Pedro II- com o último papa a tomar o nome do primeiro, o círculo fecha-se. Isso anuncia o fim da Igreja de Roma e a entrada em cena do Apocalipse .



Basta partir daqui e trabalhar um pouco o conceito. Quer-se uma definição nova, quer dizer...menos autoritária. "Hipocalipse", revelação desde baixo. Sim, porque desta vez não trabalharei (que palavra feia!) com um só messias; de único terá o nome, o tag , a máscara. Desta vez o messias é potencialmente a

maralha toda. Estou a pensar num ícone multiforme, que atravesse todas as modas, todos os ambientes, e que se preste do início ao fim a ser reciclável por todos menos pelos chuis e padrecas (i.e. artistas, publicitários, etc); que os gurus vão pro caralho!

Nos últimos tempos estou a trabalhar num personagem fascinante, muito trendy, que é muito prometedor para isso. Mas sobretudo tem um nome musical que se publicita por si: LUTHER BLISSETT.

Nenhum comentário: